Logo unmute
JUSEPH ©Pedro Sousa © Pedro Sousa

Não foi um parto fácil mas, como se diz, valeu a pena a espera. O primeiro longa-duração dos JUSEPH teve um período de gestação longo, com alguns aspectos a terem que se alinhar pelo caminho, até resultar no todo que é agora Óreida.

Depois de já termos assistido ao concerto de apresentação do disco em Lisboa, no Sabotage Club, decidimos trocar umas palavras com o guitarrista Leandro Sousa Bastos, de forma a compreendermos melhor esta parte do trajecto e quais são os próximos passos a dar nesta jornada traçada pela banda.

Não foi um trajecto fácil aquele que vos trouxe até Óreida. Essa superação de circunstâncias que foram aparecendo pelo caminho faz com que seja ainda maior a satisfação por editarem o disco?

Sim, não foi de todo um caminho fácil, como primeiro longa-duração queríamos fazer deste disco, um disco especial, editar em vinil, obter uma colaboração com alguma editora internacional, e foi precisamente a busca de editoras e tempos de edição a parte mais dolorosa desta caminhada! Óbvio que estamos orgulhosos com o que produzimos, desde início que o álbum, a composição, o próprio conceito, merecia este cuidado; um vinil bonito, um artwork forte. À parte de toda essa viagem atribulada, estamos realmente satisfeitos com o que temos em mãos!

Escolheram como título do álbum a palavra islandesa para entropia. Sendo esta um sinónimo para imprevisibilidade, acaba por também fazer sentido no percurso que culminou em Fevereiro com este lançamento?

Pois, agora que falam nisso, parece haver de certa forma uma relação. Entropia remete-nos para desordem, mas não foi por estarmos desordenados que o álbum demorou tanto tempo a sair. Sempre tivemos as nossas ideias bem definidas sobre como queríamos trilhar o caminho da edição do disco, colaborar com uma editora de fora, editar em vinil, criar um bom design, fazer videoclip, e ao nosso ritmo fomos conseguindo fazer tudo isso. Pecou pelo tempo. Imprevistos acontecem, mas quando nos deparamos com situações que estão fora do nosso controlo, as coisas tornam-se mais complicadas.

Por falar na Islândia, o que é que vos atrai e faz identificar com esse país em particular? De que forma é que influenciou estas músicas?

O termo entropia foi o primeiro conceito a celebrar uma comunhão com as músicas. Entretanto pesquisámos a forma como essa palavra era escrita noutras línguas. “Óreida” foi a tradução que nos chamou mais a atenção, pela forma como se lia e escrevia, com o bónus de ser uma palavra islandesa. Visualmente a Islândia é um país muito bonito, nenhum de nós ainda o visitou, mas pelo que temos conhecimento, encaixa perfeitamente naquilo que tentamos transmitir com o nosso som: brilho e escuridão. Tem paisagens que tanto te podem transmitir calma, leveza, como por outro lado, isolamento, melancolia! A Islândia pareceu-nos então o sítio certo para “viajar”… sem medos! Com esse ponto de partida, produzimos então um álbum que consideramos conceptual… dizemos nós, de peito cheio, porque realmente existe um caminho escuro que converge para algo bem mais brilhante!

Gravaram o álbum nos Estúdios CAOS Armado, como é que foi o processo de composição e gravação? Levam as coisas já todas estruturadas para estúdio ou há espaço para alguns improvisos que surjam?

O processo de composição foi um desafio, pois coincidiu com a entrada de um novo membro em finais de 2014, o Rafael Soares, que veio ocupar o lugar de teclas e terceira guitarra. Começámos então explorar dinâmicas e sons que não tínhamos utilizado no EP, e entre a adaptação a um novo elemento à criação de temas, levámos cerca de 2 anos a ter todas as músicas prontas.

A gravação em si foi bastante tranquila. Já conhecíamos o Dani, tanto como produtor, como técnico de som. Ele próprio já nos tinha feito som em alguns concertos; em parte, sabíamos o que esperar dele e ele de nós. A localização foi também um dos motivos da decisão, Santa Maria da Feira fica entre as cidades que mais frequentamos, Porto e Vale de Cambra, o que nos permitiu produzir o disco a um ritmo mais leve, sem sentir muita pressão em relação a timings. Também já tínhamos os temas bem estruturados e uma visão geral de como queríamos o alinhamento do disco, o que ajuda logo o processo. Há sempre espaço para alguns pequenos arranjos feitos em cima da hora, alguns surgiram até por própria sugestão do Dani. Acaba também por ser esse o gozo de estar em estúdio, o poder experimentar, no entanto, como já dissemos, o molho principal já estava bem espesso antes do início das gravações.

JUSEPH

©Inês Silva // unmute

Num formato físico optaram por editar o álbum apenas em vinil, o que vos levou a tomar esta decisão?

O vinil passou a ser, e ainda bem, o formato físico dos dias de hoje. É um objeto de culto, obriga o ouvinte a apreciar o disco faixa a faixa. Infelizmente, ainda existem muitas pessoas a ouvirem música de forma bastante descontrolada, sem critério, muitas vezes sem perceber o artista; o vinil veio combater um pouco essa tendência. Portanto, dado que achamos que o nosso álbum se deve ouvir por inteiro, ser apreciado dessa forma, juntamente com o artwork, pareceu-nos sempre a melhor decisão face ao que o mercado pedia, e tem resultado bem a aceitação do nosso público a esse formato. Há sempre quem pergunte pelo CD, mas para já vamos continuar só desta forma.

Em Portugal contam com o apoio da Regulator Records e Raging Planet, enquanto lá fora trabalham com a Wooaaargh. Como é que tem sido trabalhar com estas três editoras e como é que a Wooaaargh entrou nos vossos planos?

O Makosh da Raging Planet sempre quis colaborar connosco, entretanto durante o contacto com editoras internacionais, a Wooaaargh foi a primeira a estar interessada. Como já tinha trabalhado com outra banda portuguesa que nos é próxima, os Catacombe, decidimos fazer a edição com eles, sendo os responsáveis pela produção. O Cris é alguém que tem experiência na edição em vinil, deu-nos boas sugestões no que diz respeito à parte da produção, apresentação do disco, sabe o que o público procura neste formato, mas como ainda tinha vários lançamentos pendentes, o nosso disco começou a ficar atrasado. Como há pouco falamos, situações que acabaram por ficar fora do nosso controlo. Por último, no meio de outras editoras de fora que inicialmente estariam interessadas, mas que depois acabaram por saltar fora do barco, surgiu a Regulator Records, do João Vairinhos.

Cada editora tem a sua forma de trabalhar, seja de uma forma mais ativa nas redes sociais, distribuição em lojas físicas, ou até mesmo no envio de promos. Acreditamos que cada uma dá a sua contribuição da melhor forma possível, e estamos satisfeitos em trabalhar com aqueles que desde o primeiro momento acreditaram em nós e no disco.

Great Isaac foi o cartão de apresentação de Óreida e o seu vídeo esteve presente em vários festivais de cinema nacionais e internacionais. Havia esse tipo de expectativa quando se juntaram com o Mário Costa para o fazer?

Conhecemos muito bem o trabalho do Mário Costa, ele também é de Vale de Cambra. Já tinha sido responsável pelo nosso “studio report” durante a gravação do “Novae” em 2013 e também produziu o vídeo da música que dá nome ao EP; e face ao que tem feito com outros artistas da nossa cidade, sabíamos que haveria uma forte possibilidade do videoclip passar em algumas mostras de cinema, como já aconteceu com outros vídeos dele. É uma outra forma do nosso trabalho ser divulgado, chegar a um público diferente que noutro contexto teria bastante dificuldade em nos encontrar!

 

 

Já passaram os primeiros concertos de apresentação deste disco. Como é que tem sido a receptividade do público a estes temas?

Do que nos apercebemos, o público tem vivido com intensidade os nossos concertos, têm curtido tanto quanto nós, e é bom sentirmos isso. As músicas são mais atmosféricas que no disco anterior, e à semelhança do que fizemos no concerto do Porto, sempre que seja possível iremos apostar numa componente mais visual para tornar a experiência ao vivo diferente relativamente ao que fizemos no passado. Óbvio que há sempre quem prefira a abordagem mais direta da composição do EP, mas a ideia é nunca produzirmos discos iguais, e quanto a isso fizemos o certo, e acreditamos que o público está connosco nesta jornada.

Para além de Portugal, levaram também a apresentação do disco a Espanha, mais concretamente à Galiza. É uma ambição tocar mais vezes lá fora?

Existe uma intenção forte em tocar fora de Portugal, aliás, o nosso tipo de som acaba por ter mais força noutros cantos da Europa. A logística de marcar uma tour é que se torna complicada quando praticamente todos nós temos os nossos trabalhos, projetos paralelos, e conciliar datas para Portugal já é uma luta, para fora mais difícil se torna. Além de que, para mal dos nossos pecados, somos daquelas bandas que leva a casa às costas. Se puderem imaginar três amplificadores de guitarra, baixo, bateria, um teclado e pedalboards de efeitos que mais parecem saídas de uma feira da NAMM… Já devem perceber a ideia! Mas sim, ir à Alemanha, Bélgica, parece-nos uma opção viável, mesmo em UK temos alguns contactos que nos podem ajudar. Será algo a fazer com um ano de antecedência, trabalhando com os contactos certos. A ver vamos o que o futuro nos reserva. Existe para já uma necessidade de fazer datas por cá, começar também a procurar festivais alternativos, conquistar novamente o nosso espaço no meio underground português.

Não é de agora, mas parece existir cada vez mais uma certa reticência no rótulo pós-, principalmente quando se lhe mete rock ou metal à frente. Acham que há uma certa saturação no estilo e que é isso que vai fazendo oscilar o interesse das pessoas nestas sonoridades?

Existe realmente uma desconfiança em relação ao estilo, o post-rock foi um género bastante estimado, diferente, que explodiu durante a primeira década de 2000, onde muitas bandas apareceram com mesmo tipo de composição (crescendos, reverbs exagerados, temas longos) e é normal existir essa tal saturação, até porque se destina a um público muito específico. Agora, as bandas que durante essa época se conseguiram destacar continuam a dar cartas e têm seguidores bastante fiéis. Por outro lado, hoje em dia é fácil virar a cara ao género, principalmente a novos projetos, porque também se criou esse tal estigma em volta do estilo. É moda dizer-se que está saturado, as pessoas vão na onda, mesmo não se sabendo bem o porquê, existe facilidade em se descredibilizar, sem ouvir, conhecer, sem dar uma oportunidade, e mesmo que haja essa oportunidade, o público já vai com uma ideia formatada na cabeça, nunca vai com o intuito de tentar compreender o artista!

Conclusão, já não é só culpa do post-rock, do post-metal, do “post-cenas” em si, mas também um pouco do que se escreve por aí. É uma fase, daqui uns anos vai afetar outro subgénero qualquer…

No que nos diz respeito, o que nos move é principalmente compor o que realmente gostamos, óbvio que faz sentido as bandas se reinventarem, experimentarem coisas novas, novos instrumentos, colaborar até com outros músicos; nós também pensamos dessa forma. Mas uma coisa é certa, nunca iremos seguir tendências só porque agora o “vento” sopra noutra direção.

Outras entrevistas